O dia em que desisti de ser
professora
Sou
professora de informática educativa da Escola Municipal Professora Olga
Teixeira de Oliveira, em Duque de Caxias/RJ. Leciono há 15 anos. Fico pensado
se algum de nós já pensou em desistir. Hoje acordei pensando em desistir de ser
professora. Sei lá, fazer outra coisa. Chega, disse para mim mesma quando o
relógio despertou. Pronto, decidi, vou ser secretária, atendente, camelô.
Qualquer coisa menos ser professora. Isso mesmo.
Analisando
as minhas opções, a ideia de fazer outra coisa me agrada. Talvez, secretária e
falar vários idiomas. Mas, arranho no inglês. Não, não dá para mim. Camelô:
essa ideia me anima. Caminhar. Pegar sol, “Esta blusa está linda na senhora,
combina com seu perfil (atriz também, pois preciso dissimular bem as
gordurinhas da 'freguesa').”. Acho que também não, mas ainda tenho várias
opções. Às vezes na vida da gente temos que mudar, fazer outras coisas.
“Professor de sala de informática não faz nada. Quero ver encarar uma turma
como nós”, disse um professor em tom de ironia na hora do recreio, olhando-me
de soslaio. Fito-o furiosa. Agora mais decidida ainda. Vou largar o magistério.
Quanta falta de companheirismo. Lembro do meu juramento há ... alguns anos.
Jurei honrar minha profissão e zelar pelo bem-estar dos meus alunos. Nada tinha
sobre querer desistir, se cansar, horas extras, indignação, choro, carregar
livros, ouvir injúrias. Não, não tinha. Nosso diploma deveria ter prazo de
validade.
A turma
chega. Cada um corre para um computador. Interrompem meus pensamentos. Uns
gritam eufóricos. Eu, com olhar cansado, peço para abrir um site de pesquisa
sobre a Baixada Fluminense, sem me mover. Luiz Felipe, olhos vivos e muita, mas
muita energia, grita lá da máquina dez. “Ô dona Rose, não vai conversar com a
gente antes, não? A senhora sempre diz que temos que bater um papo antes de
começar as pesquisas”. Pergunto molemente sobre o que ele deseja conversar. E
ele responde: “Ahhhh, sobre o que nós vamos pesquisar, né?”. Silêncio. Olha
para mim, cala-se. Percebe que hoje não estou professora. Compreende. Eles
sempre nos compreendem.
A aula
acaba. Todos correm para a saída. Eu também. Saio à rua feliz da vida. Olho o
céu. A escola fica para trás. Que alegria! Atravesso a rua alguém grita:
“Rosemary! Sou eu, Dona Lourdes.”. Minha professora do 1º ano. Nossa, faz tanto
tempo. Aceno com um sorriso de alegria. Nunca me esqueci de seus olhinhos
verdes. De como fazia-me sentir importante em suas aulas. Fico olhando-a
tentando lembrar algum traço daquele tempo. Ela continuava a mesma. Irradiava
alegria e confiança. Existe algo melhor do que ser reconhecida na rua por sua
professora do primário? Ela sempre sabia o nome de todo mundo. Fazia a chamada
e dizia nome e sobrenome de todos. Eu a olhava com admiração e respeito.
Tratava a todos com carinho. Abraça-me. Retribuo. Pergunta-me sobre a vida.
Respondo sorrindo: “Professora, sabia que a senhora foi responsável por
torna-me professora? A senhora demonstrava tanto carinho com a gente. Falava de
poesia como se bebesse as palavras. Somos colegas de profissão com muito orgulho.
Lembra quando a senhora nos ‘forçava’ toda aula a trazer um autor para a
sala? ‘Quem você trouxe hoje?’. E um dia
eu disse: ‘Cecília Meireles.’. A senhora deu um grito de admiração pela minha
escolha. Neste dia resolvi ser professora.” Ela sorriu meio sem jeito. Olhos
embaçados. Diz que sente falta dos alunos, eles traziam-lhe vida. Abraça-me
novamente e convida-me para ir um dia a sua casa. Está aposentada. Despede-se.
Paro numa
lanchonete peço um pastel e um caldo de cana. Começo a pensar em suas palavras.
Bebesse poesia. Dona Maria de Lourdes. Escola Municipal Coronel Eliseu. Resolvi
ser professora. Entre uma mordida e outra sinto meu humor melhorar. Decido que
preciso pensar em algo diferente para a próxima aula. Nasci para ser
professora. Como fui importante, quanto carinho. Nada é mais importante do que
isso. Lembro do Luiz Felipe. Sorrio novamente. Vocação será um bom assunto para
os oitavos anos pesquisarem na internet na próxima aula. Preciso contar a uma
amiga da USP sobre o Projeto dos idosos: Alfabetização de adultos com o uso da
tecnologia: uma proposta possível. Sinto-me viva novamente. Acho que o dia de
hoje daria uma boa história.
Disponível em: <
http://www.museudapessoa.net/pt/conteudo/historia/o-dia-em-que-desisti-de-ser-professora-40841/colecao/101964>.
Acesso em: 10 mar. 2017.
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