terça-feira, 9 de junho de 2020

10/6 - RELATO PESSOAL


O dia em que desisti de ser professora

              Sou professora de informática educativa da Escola Municipal Professora Olga Teixeira de Oliveira, em Duque de Caxias/RJ. Leciono há 15 anos. Fico pensado se algum de nós já pensou em desistir. Hoje acordei pensando em desistir de ser professora. Sei lá, fazer outra coisa. Chega, disse para mim mesma quando o relógio despertou. Pronto, decidi, vou ser secretária, atendente, camelô. Qualquer coisa menos ser professora. Isso mesmo.
              Analisando as minhas opções, a ideia de fazer outra coisa me agrada. Talvez, secretária e falar vários idiomas. Mas, arranho no inglês. Não, não dá para mim. Camelô: essa ideia me anima. Caminhar. Pegar sol, “Esta blusa está linda na senhora, combina com seu perfil (atriz também, pois preciso dissimular bem as gordurinhas da 'freguesa').”. Acho que também não, mas ainda tenho várias opções. Às vezes na vida da gente temos que mudar, fazer outras coisas. “Professor de sala de informática não faz nada. Quero ver encarar uma turma como nós”, disse um professor em tom de ironia na hora do recreio, olhando-me de soslaio. Fito-o furiosa. Agora mais decidida ainda. Vou largar o magistério. Quanta falta de companheirismo. Lembro do meu juramento há ... alguns anos. Jurei honrar minha profissão e zelar pelo bem-estar dos meus alunos. Nada tinha sobre querer desistir, se cansar, horas extras, indignação, choro, carregar livros, ouvir injúrias. Não, não tinha. Nosso diploma deveria ter prazo de validade.
              A turma chega. Cada um corre para um computador. Interrompem meus pensamentos. Uns gritam eufóricos. Eu, com olhar cansado, peço para abrir um site de pesquisa sobre a Baixada Fluminense, sem me mover. Luiz Felipe, olhos vivos e muita, mas muita energia, grita lá da máquina dez. “Ô dona Rose, não vai conversar com a gente antes, não? A senhora sempre diz que temos que bater um papo antes de começar as pesquisas”. Pergunto molemente sobre o que ele deseja conversar. E ele responde: “Ahhhh, sobre o que nós vamos pesquisar, né?”. Silêncio. Olha para mim, cala-se. Percebe que hoje não estou professora. Compreende. Eles sempre nos compreendem.
              A aula acaba. Todos correm para a saída. Eu também. Saio à rua feliz da vida. Olho o céu. A escola fica para trás. Que alegria! Atravesso a rua alguém grita: “Rosemary! Sou eu, Dona Lourdes.”. Minha professora do 1º ano. Nossa, faz tanto tempo. Aceno com um sorriso de alegria. Nunca me esqueci de seus olhinhos verdes. De como fazia-me sentir importante em suas aulas. Fico olhando-a tentando lembrar algum traço daquele tempo. Ela continuava a mesma. Irradiava alegria e confiança. Existe algo melhor do que ser reconhecida na rua por sua professora do primário? Ela sempre sabia o nome de todo mundo. Fazia a chamada e dizia nome e sobrenome de todos. Eu a olhava com admiração e respeito. Tratava a todos com carinho. Abraça-me. Retribuo. Pergunta-me sobre a vida. Respondo sorrindo: “Professora, sabia que a senhora foi responsável por torna-me professora? A senhora demonstrava tanto carinho com a gente. Falava de poesia como se bebesse as palavras. Somos colegas de profissão com muito orgulho. Lembra quando a senhora nos ‘forçava’ toda aula a trazer um autor para a sala?  ‘Quem você trouxe hoje?’. E um dia eu disse: ‘Cecília Meireles.’. A senhora deu um grito de admiração pela minha escolha. Neste dia resolvi ser professora.” Ela sorriu meio sem jeito. Olhos embaçados. Diz que sente falta dos alunos, eles traziam-lhe vida. Abraça-me novamente e convida-me para ir um dia a sua casa. Está aposentada. Despede-se.
              Paro numa lanchonete peço um pastel e um caldo de cana. Começo a pensar em suas palavras. Bebesse poesia. Dona Maria de Lourdes. Escola Municipal Coronel Eliseu. Resolvi ser professora. Entre uma mordida e outra sinto meu humor melhorar. Decido que preciso pensar em algo diferente para a próxima aula. Nasci para ser professora. Como fui importante, quanto carinho. Nada é mais importante do que isso. Lembro do Luiz Felipe. Sorrio novamente. Vocação será um bom assunto para os oitavos anos pesquisarem na internet na próxima aula. Preciso contar a uma amiga da USP sobre o Projeto dos idosos: Alfabetização de adultos com o uso da tecnologia: uma proposta possível. Sinto-me viva novamente. Acho que o dia de hoje daria uma boa história.

Disponível em: < http://www.museudapessoa.net/pt/conteudo/historia/o-dia-em-que-desisti-de-ser-professora-40841/colecao/101964>. Acesso em: 10 mar. 2017.

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