RELATO PESSOAL
O milagre do saco plástico
Lembro até de seu nome: Nadir. Foi minha professora
de geografia. Já me esqueci de todas as capitais, mares e rios que ela possa
ter tentado me ensinar, mas foi apenas uma de suas aulas que fez com que ela
nunca mais me saísse da cabeça.
Entrou na sala nervosa, colocou suas coisas em cima
da mesa, ameaçou começar o de sempre, mas resolveu sentar. Não sentou na
cadeira da escrivaninha, hábito de muitos de meus velhos professores que, com o
avançar da idade, já davam suas aulas sentados. Ao contrário, dona Nadir até
rejuvenesceu, pois sentou sobre o tampo da mesa. Ficou em silêncio, encarando a
turma. "Hoje a minha aula vai ser diferente." Não precisava nem
dizer, já estava irreconhecível.
A senhora carrancuda era agora uma mulher jovem e
franca, sentada sobre a escrivaninha. O que a transformou foi um acontecimento
banal. Teve que frear bruscamente seu carro quando um saco plástico grudou no
seu para-brisa. Por incrível que pareça, naquela época, jogar um saco pela
janela não era algo tão absurdo e a aula diferente não foi um sermão
politicamente correto sobre o assunto.
O fato é que dona Nadir tinha levado um susto e
entrara em contato com o cristal, com a vida na corda bamba e o mero saco
plástico ao vento fez com que ganhássemos de nossa professora de geografia uma
incrível aula sobre a importância da vida. Dona Nadir refletiu sobre o
instante, sobre o quanto tudo pode se transformar muito rapidamente. Falou do
quanto podemos promover revoluções quando agimos em horas fundamentais.
Suas palavras iam nos recrutando como poderosos
agentes sobre essa matéria etérea que é a vida. Nunca mais esqueci. Na verdade,
me lembro de duas de suas aulas: a do milagre do saco plástico e da sua aula
seguinte, quando ela voltou ao seu estado normal, com aulas normais.
Seus mares e rios voltaram a fluir em branco,
enquanto eu esperava ansiosa por aquela outra Nadir. Aquela que, sentada sobre
a mesa, sabia muito mais do que acidentes geográficos.
Adaptado de Folha de S. Paulo, 12 de
janeiro de 2014
Nenhum comentário:
Postar um comentário